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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Passadas as horas, vão-se dias brancos
e o tempo é um circulo que se repete, repete...
Eu me perco andando à volta
onde tudo é secura e fome não saciada.
Vasculho meus alforjes à cata de sobejos
e nem uma gota de verso que se extraia do nada.
 ojo a lapiz cópia
Meus olhos atentos, ouvidos atentos, coração atento
esperam ...quem quer que venha na chuva
mas a chuva... não chove, quanto tempo se foi?
O tempo não se conta mais,
perde-se a noção das horas,
como num exílio,
exilado da luz
e no entanto... eu a vejo e não a sinto.
Umbral que não transponho,
onde me sento quieto e apenas olho, observo
à espera...

domingo, 16 de agosto de 2009

Ando absorto entre os homens sem alma e observo seus atos,
entre a incompreensão e a surpresa os observo.
Vejo sorrisos tão belos quanto insensíveis e frios olhos implacáveis
sobre um coração que palpita em constante e monótono pulsar
de relógio mecânico.
Não deveria surpreender-me, e contudo sempre me surpreendo
.



sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Me vem uma hora em que penso
pensar muito faz mal
pensar muito esgota minha estrutura já tão frágil
pensar muito me coíbe certas coisas que amo
quero ser inconsequente
quero comer banana muito madura e ingerir algumas bactérias
quero andar sob o sol escaldante sem medo do câncer de pele
quero beber uma cerveja ingrata que vai me dar barriga
e talvez uma dor de cabeça
quero comer fora de hora, quero sexo sem medo, na hora!
quero não pensar no celular que me agride a todo momento
que intromissão!
não quero pensar, pensar muito me cansa, e essas publicidades
que me apontam tudo que é bom pra mim, apartai-vos de mim!
quero andar descalço, quero sentir a terra sob meus pés
quero não comer de manhã
eu como antes de deitar, ou na hora que me apraz
faço xixi de pé e sinto o tremor quando acabo
me da prazer
não quero ninguém me ensinando a pensar
pensar muito faz mal
pensar muito me inibe, não amo
para amar é preciso não pensar
não, não quero pensar!
quero amar!



terça-feira, 11 de agosto de 2009

O ciúme

Veio o assassino
noite adentro
matar os meus filhos.
Nada posso contra ele
e me afasto em silêncio.

Nenhum traço de lucidez no maior dos rancores
nenhum laivo de dor
também nenhuma compaixão.
Minhas perdas congelam meu sangue no olho
e esse ódio que grita dentro de mim
e tenta se livrar a si mesmo,
que ódio é prisão, ciúme é prisão, posse é prisão
querer possuir é prisão.

Não morro no primeiro golpe mas enfraqueço meus membros
talvez eu não sobreviva na primeira noite
ou nem queira saber depois e siga indiferente um caminho já conhecido
mas a luta é inútil, e se me debato é em vão.
Não posso vencer, não há vencedor
só perdas e dores vindas do nada, e sinto uma fadiga imensa nessa hora.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Hiroshima 8:15


Oh! Hiroshima, Hiroshima!
Por que te esquecestes de mim?
Eu pairava sobre teu povo e dormitava em suas esteiras
ao raiar do sol das 8 e 15, aquele dia.
Me surpreendo ainda olhando no passado
eu estava no berço e chorava pelo seio materno,
onde minha mãe? onde? onde os braços protetores?
Onde os homens que usurparam minhas asas
para com outras
metálicas, de duro brilho sobre meus ombros
duros algozes,
virem queimar minha relva no meu jardim
e trucidar minhas papoulas inocentes e úmidas no amanhecer?
Venham homens do poente com vossos encouraçados estúpidos
quero ofertar-lhes o meu perdão!
Oh! Hiroshima! Hiroshima!
Lembra-te de mim ainda!
Lembra-te de mim em todas as pedras calcinadas de teus prédios
de teus muros, da cada calçada
onde ouviram apressados e sem rumo
meus passos
naquele dia.
Lembra-te de mim que ainda procuro aqui o meu jazigo,
meu leito que não me destes, porque ainda vivo eu em ti.


Presságio

Veio o vento soprando coisas novas em meus ouvidos,
segredos e canções,
e trazendo um aroma da serra.
.k&p.
Trouxe consigo um jeito novo para meu sorriso
e cristalizou um novo brilho em meu olhar.
É por isso que meu coração salta na garganta
quando sinto esse vento em meus cabelos
e meus olhos se fecham
numa revolução de sentidos, emoção e fé.
Veio entregar-me, cansado e trôpego,
em redemoinhos maltrapilhos,
um novo sonho, uma nova crença
solevando minhas pálpebras tão áridas
para que eu possa olhar acima e além, e ainda mais alto,
e sorrindo entre lágrimas incrédulas dizer:
- Estou aqui! Meu sonho...eu vou!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Vento do Norte

Se um dia eu estivesse junto ao mar
ouvindo gaivotas e ondas que rebentam em espuma
queria ter você recostada em meu peito
olhar em repouso no horizonte
a respiração suspensa num encantado instante
e que você me olhasse bem nos olhos e apenas dissesse:
- "Meu vento do norte!"
Eu esboçaria um sorriso tremulo
de felicidade contida
e sem mais o que dizer
me entregaria
ao lindo prazer de se olhar em silencio.

domingo, 2 de agosto de 2009

No meu pátio havia uma fonte, e ela era das coisas que eu mais amava. Minha fonte vertia água cristalina que corria cantante entre pedrinhas brancas e findava num lago singelo coalhado de nenúfares brancos que eram um deleite para os meus olhos. Minha fonte era um sonho.
Um dia veio o inverno baixar suas brumas de cinza e chumbo sobre meus tesouros. Meus olhos não viram mais a singeleza do lago e meus ouvidos tornaram-se surdos para o canto das águas que antes corriam pelas pedrinhas brancas. Passou-se um tempo nem curto, nem muito longo, mas suficiente para que meus olhos se habituassem à escuridão da cegueira e meus ouvidos ao silencio da surdez.
Como não há mal eterno, veio também o dia em que de longe vi as brumas se dissiparem. Corri à minha fonte, saudoso do seu canto e da visão do lago de nenúfares brancos. Meus olhos constataram com incredulidade que o impossível havia acontecido: Minha fonte havia secado!
Não chorei a morte da minha fonte. Desviei o olhar. Um momento depois virei as costas e parti em direção às montanhas onde, ao nascer do dia, tinha ouvido um riacho correr entre as pedras, formando corredeiras e cascatas, e meus olhos ansiavam pela paisagem que poderia descortinar la de cima.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

“Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.”

Et tu viens come si de rien n’était,

fais-moi buillir mon sang

fais-moi rêver de toi dans un instant

au coucher du soleil

et tu pars … comme ça!

Fuis-moi sans un regret,

sans un adieu qui reste comme souvenir.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Quando venho repousar no cair da tarde
meus olhos sonhadores nas sombras que se alongam
entre os raios dourados do ocaso,
ouvindo ao longe murmúrios da vida que se aquieta,
sons de vozes que chegam e partem sem dono,
cães queixosos em quintais incertos e ruas de terra nua;
aspirando a brisa indecisa de um inverno tropical,
meu coração em cadencia branda se aninha no peito,
e um friozinho, um quase arrepio
se insinua pelos meus cabelos e passeia pelos meus poros.
Olho à volta num chamado mudo e percebo
a esperança a caminho, nos braços trazendo você.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Coração de Safira


Sou pedra rara que guarda seu brilho nas profundezas da terra,
você não pode me encontrar na feira de domingo
entre brócolis, castanhas e flores,
porque sou único e não estou exposto a olhares indiscretos.
Viaje pelo universo e não verás algo próximo, 
sequer semelhante.
Meu poder não está no brilho que reservo com avaro ciúme
está na pureza da gema, perfeita cor e bom quilate
em mãos improprias seria perigo, cobiça, ódio, crimes e guerras.
Sou raridade única e cobiçada,
então me disfarço em andarilho e fujo do burburinho das praças.
Meu segredo carrego pra sempre oculto
e se uma rainha de coração nobre viesse um dia 
a portá-lo ao peito, não sei.
Eu seria radiante estrela cintilante, fogo, raio,
radiação cromática em arco íris
e multidões se curvariam perante sua majestosa altivez.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sergio SimõesEu a sinto na aragem do dia
quando vem repousar o sol
nas montanhas azuis da minha terra.
É só uma saudade que me traz
a passagem do tempo,
nada mais.
Quisera então saber
o porque desse nó na garganta
e essa dor me esmagando o peito.
Uma voz bonita canta ao longe

e uma melancolia me deixa paralisado.
Quieto
deixo que uma lágrima deslizando em meu rosto
vá se esconder entre fios de barba branca.
Sorrio e cumprimento uma mulher que passa,
sem voz, num aceno apenas,
não posso falar.
As montanhas azuis, o sol dourado do entardecer
e essa aragem que me a traz sorrindo
me deixam assim por um momento
sem presente ou futuro com que sonhe,
em todo eu apenas passado,
cravado nos minutos que o relógio não marca mais.

sábado, 18 de julho de 2009

Quando escrevo aqui, escrevo meio sem inspiração, meio sem vontade; forço um pouco a barra, somente pra postar alguma coisa. Não faz diferença, escrevo mesmo é pra mim, gosto de falar do que sinto. Se ninguém me ouve quando quero falar, eu escrevo, e aqui tenho o meio ideal pra isso. Se ninguém lê, não faz diferença, escrevo e pronto, é uma forma de desabafo também e não faço estilo, como escrever de forma que as pessoas venham a gostar. Escrevo como quero, do jeito que me vem à cabeça na hora da inspiração, sem fazer tipo. Este sou eu, é o meu texto, meu poema, meu canal de expressão. Aqui eu ponho minha alma. É bom poder se expressar; seria como gritar em praça publica, onde todo mundo ouve, mas ninguém dá a mínima. Mas eu falei, soltei a minha voz, aqui eu posso gritar, chorar, rir, lamentar, elogiar, lembrar, reviver um fato bom do passado, contar histórias, mentir, e ser bom. Bom com quem me lê, bom com quem me ouve e fazer amizades também, conhecer pessoas com as mesmas afinidades, pessoas que gostam do que escrevo, pessoas que se identificam com o que leem, pessoas que me trazem também algo de bom; então eu descubro que ainda há gente no mundo e isso é reconfortante. Da uma vontade de chorar quando se descobre pessoas assim, mas que estando distantes talvez eu nunca vá ver.

Saudades de vocês a quem nunca vou abraçar.

Homo cyberensis

Virá o dia dos homens descartáveis

das amizades sem toques e sem abraços

dos cyber-romances vazios e mentirosos,

sem choro no bate-boca de namorados que se beijam depois,

abraçadinhos e carinhosos num pedido de perdão.

Sem verdades ditas na frente e com coragem

pelo amigo que não tinha medo de ferir o ego pelo bem do amigo.

Virá o dia das verdades apagadas, porque feriram,

e secarão no cyber-espaço, inúteis, sem germinar.

Virá o dia dos homens criados num ideal de sonhos coloridos

numa imagem de pixels, sorridente, feliz e sem alma.

wallp014

Virá o dia do mundo sem alma,

pois a alma nos faz sofrer com todos os seus desejos insatisfeitos

e não queremos sofrimento.

Virá o dia em que o homem vai deletar o seu meio

e criar um cyber-coração que ele possa comandar.

Do cantinho seguro do seu quarto, a portas fechadas

comandará sua vida, feliz e só, num clik de mouse.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Monólogo matinal

- Bom dia meu caro.
- Hummm, bom dia.
- Como passou a noite?
- Pli malpli, como se diz em Esperanto.
- Ora vamos, nada de pessimismo, então, como passou?
- Dormi.
Pedro Casquilho

-Muito engraçado. Por uma convenção internacional criada não sei em que obscuro momento da humanidade, dormimos à noite. E de manhã nos levantamos como é também convencionado.


- Penso nela...
- E daí. Ainda vai pensar por muito tempo, mas verá que a frequencia e a intensidade vão diminuindo com o passar dos dias. Ainda vai se surpreender pensando em outra pessoa ao despertar.
- Agora, levantemo-nos. Arriva, hombre!!! hahaha!
- Tenho saudades, que faço com a saudade?
- Guarde-a para ti, se quiseres. Não quero saber da tua saudade. Vê aquela luz azulada por cima da montanha? É o sol que vem nascendo. Logo estará brilhante e lúcido e é assim todos os dias, mesmo que você fique aí prostrado com tua saudade, tuas lamurias inúteis, teu pessimismo exagerado. Alguém já disse que estás enganado, verás em breve que é verdade. Portanto, mesmo contra tua vontade, sacuda essa ilusão como um cão sacode as pulgas. Hoje estou para humorista, percebeu? É que temos a vida de graça, temos nosso trabalho que é gratificante, temos os olhos bons para olhar a beleza que outros não podem ver, temos o coração generoso e uma alma de poeta. Esta ultima já não é tão boa mas, pelo menos escrevemos coisas absurdas que os outros leem por diversão.
- Não consigo ficar triste com você falando assim...
- Claro que não consegue. Como pode pensar nisso de maneira viciosa, todos os dias sem se dar conta do tempo que perdes, do tempo roubado à alegria que tens de sobra na alma? Abra as portas do sorriso e deixe essa aragem nova entrar. Melhor, ria alto como sempre fez. Ria alto o mais que puder, que teu riso seja ouvido ao teu redor e se espraia sobre tua vizinhança como esse sol que está prestes a nascer.
Já dormiste demais, já choraste demais; foi um dia chuvoso e frio que passou pela tua vida. Pense na luz da primavera, nos campos de flores silvestres, nas maritacas que vêm cantar em algazarra nos telhados próximos à tua janela, pense no perfume que exalam as árvores da rua ao amanhecer, e no colorido que elas te proporcionam. Pessoas te adoram, mesmo aqui bem próximo de ti. Um filho tem amor incondicional e sois ainda seu herói desde a infância. Seja então herói de verdade. Levanta-te e anda! ó maluco! Que tens a vida plena e lamentas um sentimento que outro não te dedicou.
E agora vamos tomar um café quente que me cansei desse palrear inútil. O dia promete... haha!
O outro se cala, vencido. Um sorriso insinua-se no rosto inchado de quem acabou de acordar, os cabelos amarfanhados no travesseiro.
Um suspiro profundo e salto da cama. Corro ao banheiro para me lavar pensando na melhor roupa para usar nesse dia especial.