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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Serei feliz de novo
quando os grilos cantarem no silencio
depois da missa do galo.
Jeanne Hauri 

Me levantarei sem pressa e me olharei no espelho
os olhos brilhantes me dizendo: nenhum medo novo!
Nenhum fantasma do passado rondando minhas noites
na imagem refletida.
Verei meu sorriso escancarado e puro
e estarei feliz de novo
com meus dentes tortos
e minha alma livre.

sábado, 30 de maio de 2009


Meu sonho tornado real...
Você é eu,
uma projeção da minha mente
materializada em pele e sentimentos
a olhar-me assim das profundezas do tempo
delicada inocência primeva
bela como um conto de fadas
e eu, encantado príncipe
olhando teus olhos a dizerem "amor"
me faço menino, e num sonho
descansando a cabeça em teu seio
me deixo envolver nos teus braços
embalado na paz do teu ser.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Passa-me o tempo assim, como quem nada quer.
Como água corrente de riacho frio no inverno.
E frio escoa o tempo, sem intempéries.

Queria de volta o tempo de dilúvios
e terremotos.
Em que a vida vinha cheia de armadilhas
e eu passava as horas na espreita
do melhor momento de pular o muro
e roubar as laranjas maduras e doces
do vizinho que me espreitava por trás dos bambus.

Era o tempo da tocaia, do conluio entre camaradas.
A mãe poderia vir de cinta na mão; e ai...
fugir era impossível.
Aceitar o chicote com um sorriso amarelo, era o desenlace
para os incautos que não cuidavam no fazer com cautela.

Vinha o dia de festa na lagoa
pois era domingo.
Escondido, sim. Nadar na lagoa era impensável.
Mas oh! que tardes sadias de ócio e prazer
às margens da água misteriosa e escura,
onde o espaço era disputado com os patos
e alguns marrecos minguados.
Os bois pastavam ali ao lado
e entre um mugido e outro, os olhos fechados
com o sol acariciando a pele, um langor dormitando no corpo,
a tarde se esvaía em gritos, em risadas largadas,
em sons de pássaros como crianças.


Vez ou outra, um "matar a aula" da escola
e o fugir da vizinha que tudo delatava.
Perigo! Se ela vê... perdição!
Castigo. Joelhos no milho num canto da sala.
Duas horas de martírio
e uma vigília durante a Salve Rainha do terço.


O segredo da menina que sempre paciente,
mostrava as pernas abertas na consulta do "médico".
Um segredo que excitava, era loucura e era bom,
um cheiro gostoso que inebriava.
Sem dor, sem pejo, apenas descobertas...
E o segredo era tudo.

E o tempo das intempéries se foi.
Sem mais armadilhas, sem mais passarinhos,
tudo calmo e santificado
nos dias comportados que se vão também.

E os dias dos sustos, das surras merecidas como prêmios,
ficou na memória dos carecas barrigudos
que agora, apenas ouvem musica com ar sonhador.

domingo, 17 de maio de 2009


Habito ainda a terra dos gentios,
falta-me o ardor fervoroso dos profetas de Deus
e a oferenda nos altares ornados de ouro.

Corro em campo aberto, no peito a nudez impune
e a inocencia da palavra atirada a esmo
irreverente, ferina, ou melodiosa e terna.

Não há maldade no meu gesto.
Carrego comigo a crueza das palavras
e a franqueza inconsequente do ignorante.

E mesmo sem o fervor do crente
me ajoelho com frequencia
pedindo perdão, como escravo da treva
ao espírito que me conduz.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Olhando tuas fotos...
como você está linda nelas...
teu rosto tem uma aura que me atrai...
meu olhar fica parado...
o cérebro desliga uma parte....
e só tento sentir vc...
tento imaginar tua proximidade...
teu toque...
tua pele...
teu abraço...
teu cheiro...
tua voz...
o som do teu riso...
e o que mais queria...
o brilho dos teus olhos...
perto, tão perto...
que eu sentisse o teu hálito...
a tua respiração.
E bem pertinho...
o bastante...
pra sentir teu coração.

sexta-feira, 8 de maio de 2009



Ah...meus dias insanos! Esses dias insanos!
E bem pouco se passou... meu coração jazia além
morto
no coração de alguém.
E ainda
que bem já teria apodrecido
mas ressuscitado
numa sobrevida
gozou de momentos lúbricos.

Insanos dias esses
de deleite e desonra
num mesmo instante.

Luxúria,
amor e pecado
prazer, concupiscência,
e desprezo fatal.

O fim.

Me encanta o meu riso
convalescente e tímido
depois dos estertores da dor.

Me encanta o meu riso
quão fugaz ele seja
temeroso e frágil.

Me encanta o meu riso
brotando no peito
agradável chama me aquecendo.

Me encanta o meu riso
como uma flor
renascendo
na pedra endurecida
da lava do vulcão.

Meu riso amanhã vai ecoar
pela casa
e como o vento no verão
vai entrar em cada vão
em cada gaveta de memorias arquivadas
ecoará nas pedras da rua
e as crianças olharão espantadas
e exclamarão atônitas:

- Olha! ele está feliz!

Lembranças me vêm, de algures
como algo de que perdi a memoria.
Alguma coisa estava aqui um momento atrás
e se foi, assim, apagou-se!
sem que eu me desse conta.
Era um acontecimento! isso sei ainda
ao qual minha vida estava irremediavelmente atada.
Não o tenho mais, o momento
e o segredo que ele guardava.

E os risos
os risos sonoros e cálidos
claros e puros como um canteiro de margaridas
onde meu coração passeava
nas faceiras manhãs de domingo...

Silencio.
Manhãs sem musica,
sem vibração de vozes costumeiras
E contudo ainda lembranças
me vêm como relâmpagos.

O esquecimento é isso.
Uma amargura sem nome
um despertar sem cor
como uma folha de onde se apagou a escrita
e a escrita era poesia
a poesia era acalanto
que embalava a vida.



domingo, 3 de maio de 2009


Amo mais a ti, minha musa adorada

que me inspira, que me rouba o sono

que me leva tudo, me deixando nu

transparentes

eu e minha alma

solícitos e servís.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Aquelas nuvens de volta, brancas, leves, límpidas
num fundo azul intenso e imaculado
e eu apenas olho, distante e impassível
uma melancolia me mantendo estático
olhar incrédulo e surpreso
e não sei o que fazer com essas nuvens
brancas, leves, límpidas
que deveriam trazer-me "un bonheur",
um bem estar que não percebo
e não sei mesmo o que ser
o que fazer
de mim
de meu ser
que já não se consola de nuvens diáfanas.
Uma aragem me perpassando a pele
no fim de tarde azul e dourado
e eu de súbito percebo,
- Como está frio!

sexta-feira, 24 de abril de 2009


Há sempre uma severa melancolia permeando a alma de um poeta. São lembranças que vem de outra esfera e trazem consigo sentimentos diáfanos, como uma saudade imprecisa de algo que se viveu, mas que não se sabe onde nem quando.É como se tivesse em certo momento desenvolvido uma amnésia parcial que deixasse apenas as sensações de fatos vivenciados em outra época.
Mesmo quando fala do momento presente o poeta incorpora experiências passadas, ilusórias ou não. Se fala de momentos já vividos, por certo terão sido bons para deixar assim sua marca na alma e no inconsciente.
E se nada disso se passou de verdade num tempo anterior e indefinido; de onde então parte essa melancolia que nos faz parar no meio do dia, o olhar perdido no infinito a buscar pela definição de uma sensação, pela emoção de uma frase reveladora que ilustrasse a descoberta em um átomo de tempo, de uma fagulha de sentimento puro e cristalino que na maior parte das vezes nos escapa?
Pois, o que o poeta faz, nada mais é que captar, numa ínfima parcela de tempo, o instante fugaz da revelação, partindo de sua alma, de sublime amor pela vida.

sábado, 18 de abril de 2009

Que saudades sinto
benzinho, que não explico.
Saudade de toda hora
saudade de cada minuto
saudade do que já sonhei
saudade do que vivi
saudade do que serei
saudade do que passei
de bom e de mal também
a vida é assim
uma saudade crônica
se instalando em mim
no primeiro segundo sem ti.

O violonista.

Solenemente sentou-se
dedilhou as cordas convicto
e da partitura da alma
tirou os primeiros acordes
da vida.


Meu anjo em mim.

Habita em mim um anjo de olhar pacífico
abrangente e lúcido.
Habita em mim um anjo de elevada estirpe
iluminado e puro.
Repousa em mim um anjo de silêncio
meditativo e eterno.

E quando vem a fera que sou
mostrar os dentes
o olhar do anjo me aniquila impávido
sem dor, sem sofrimento
só luz e calma e silêncio
em paz
irresistível
e belo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Amanhecer.

Lentamente se calam os açoites.
Não vergastam mais minh'alma insana
as lufadas gélidas de ventos árticos.

Brisa mansa, cálida luz
envolta em nuvens de algodão.
Aos meus olhos se abre no infinito,
ainda baços de lágrimas pretéritas,
rasgo de esperança sobre denso manto negro.

E meu coração se inflama
e geme, e ri
grita jubiloso, braços abertos, grilhões partidos
olhar atento, na nesga de luz,
e as nuvens de algodão,
e as narinas inflamadas
sorvendo num hausto o odor da esperança,
aguarda,
dois mil tambores no peito,
o pleno descortinar da manhã.