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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre a relva verde, próximo ao espelho do lago,
dia de sol dourado e céu azul;
deitado na grama macia eu ouço,
uma música que a tudo permeia,
a sinfonia univérsica,
enquanto aspiro de olhos fechados
o aroma da folhagem que me rodeia.

domingo, 11 de setembro de 2011

Hay que endurecerse...


Devemos levar a guerra até onde o inimigo a leve: à sua casa, para seus centros de entretenimento; uma guerra total. É necessário para impedi-lo de ter um momento de paz, um momento de tranquilidade fora de seu quartel ou mesmo dentro, é preciso atacá-lo onde quer que seja; fazê-lo sentir-se como um animal encurralado onde quer que ele possa mover-se. Então, sua fibra moral deve começar a declinar. Ele vai ser mais bestial ainda, mas vamos observar como os sinais de decadência começam a aparecer.  (Che Guevara. Mens. ao Tricontinental - 1967)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O mais triste, amor
é essa noção de que todos os poemas que fiz com ardor
só farão sentido no fim,
quando nos últimos minutos da tua vida, lembrar-te de mim,
desejando-me ao teu lado,
me chamando no íntimo do teu coração magoado;
e já terei partido,
triste, enfim no abandono, perdido,
e não poderei te achar
e teu remorso consolar.
Eu já terei partido, amor;
e mais doída do não saber a dor,
se nos veremos novamente e quando,
quantas eras ainda, esperando.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quando a mente se recusa a pensar
olhando de longe um improvável espetáculo de recordações,
um circo grotesco, o outrora tão íntimo diálogo.
Nada é real, nem o colo da mulher que vem no início da noite
com sua voz macia e enganosa tormenta dos sentidos.
Nem o coração que palpita pelo ondulante quadril e curvas esmeradas,
nem o sonhar , no desejo noturno, até o seguinte embate de volúpia.  
Nada sobrevive, nada permanece, nada revigora no amanhecer seguinte.
Quase nada fica,
quase nada.
Apenas um segredo na madrugada, intimamente resguardado,
tão sofrido, tão querido, tão zelosamente preservado...
do teu rosto...uma lembrança.

O músico.

Solenemente sentou-se
dedilhou as cordas convicto
e da partitura da alma
tirou os primeiros acordes
da vida.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ge








C'était...








Une jolie femme aux cheveux blonds
sur les épaules nues.
Son corps langoureux s'abandonnait
sur le divan rouge
sous la lueur du jour finissant.
Et comme si quelqu'un l'avait appelée,
son visage me regardait de loin...
de très loin, à travers le temps.




Gemária Sampaio é minha amiga e proprietária do Chá das Cinco. Visite.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um Pinot Noir
ao som de "Ballad Medley" de Charlie Parker.
Uma vibração percorrendo minhas veias, nos acordes do sax alto
distendendo meus tendões,
injetando-me uma leveza de alma que chega às lágrimas.
Que homem pode tocar uma coisa dessas?
Homens não tocam assim, homens são maus.
Esse que toca não é homem, é um demonio que brinca com acordes,
e que bem me faz!





sábado, 25 de junho de 2011

Quero pedir perdão
a você que me olhava naquele dia
com olhos fixos no infinito,
e via tudo que havia de fantasmas, menos a mim sentado na tua frente.
Inuteis braços cruzados numa defesa irracional.
Eu não queria, te juro hoje, tanto tempo já passado
e  mesmo que já não faça grande diferença depois da tormenta.
Mas me perdoe.
Isso é tudo que te posso dizer quando o tempo se abate sobre mim
e a dor de olhar o passado me esmaga com todo seu peso.
Queria poder voltar e te abraçar naquele momento
mas o tempo não perdoa,
não dá uma segunda chance.
E mesmo este pedido de perdão não me alivia, pois
o teu perdão também não me aliviaria
quando a consciência do meu erro me atormenta por noites sem fim.

sábado, 14 de maio de 2011

O Abismo

Eu a vejo e não posso toca-la.
Vejo seus olhos em súplica muda
e seu perfume, seu calor, seu hálito na minha boca
são lembranças pungentes no meu corpo carente.
Saltaria sobre esse espaço, a alcançar a voz que se calou
não fossem meus membros já trêmulos.
A força das minhas asas, vi escoar pela terra adentro
perdendo-se na vegetação
e o musgo do tempo a tudo encobriu.
Eu a vejo e não posso toca-la.
O fosso mais se aprofunda quando chamo
e então
o que faço é permanecer estático, olhar magnético
enquanto a vida se vai, lentamente
ou até que meus pés, esgotados
criem raízes.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Aproximo-me dela com respeito
eu a olho com respeito
amo seus olhos negros e seus lábios vermelhos de um vermelho pálido
sobre a pele morena.
Seu sorriso me liberta, já o tenho dito e me libera dos meu temores
mas tenho por ela um respeito que não posso ignorar
isso não sobrepassa meu desejo 
e meu beijo é carregado de volúpia e uma felicidade sem conta
então me vem a vaga ideia de que esse amor nasce sobretudo
desse respeito que sinto, por ela
e que produz em mim uma vontade de ser mais do que sou
de crescer, ser mais homem, se ainda fosse possível, se houvesse tempo
para enfim, merecê-la.

sábado, 26 de março de 2011

Já na aurora, não vivo
sinto raiva de tudo
meu dia se arrasta em tarefas imensas
receio tudo, tudo é fardo, é dor
o desleixo, o despropósito do abandono
o cair a cada minuto, desacreditado
a tentativa vã da retomada no rumo certo
a desistência a cada hora fatigante.
O querer sair e ficar, atônito
o ficar e querer sair, atônito.
Uma vontade de nada
um choro que não vem
uma agonia sem nome
um atordoamento de limbo
um desistir de sonhos.
A desistência e enfim o sono pesado da fuga.

E quando me assalta a descrença
e me entrego nessa morte cotidiana
teu sorriso vitorioso me alcança ao fim do dia
resgata-me do abismo
e mais um dia é vencido,
os temores afastados,
serei novamente criança, por mais uma noite
até o alvorecer.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O mundo caminha para, em pouco tempo, ser uma única democracia, sem nações, sem bandeiras, sem fronteiras;ou seja, sem egoísmo. Os fatos falam por si. Ditaduras vão cair, regimes fechados vão ruir internamente. Uma fagulha de informação é um estopim que deflagra a bomba da inconformidade. A internet faz isso no mundo de hoje. Ai de vocês tiranos corruptos e ladrões. Ai de vocês, governantes "semi-deuses" que se perpetuam no poder à custa do sofrimento e da ignorância do povo.
Cairão. Têm seus dias contados. O Homem ( a humanidade )se levanta numa atitude universal, para ser dono do seu próprio destino. E a onda avança...! Ninguém segura mais esse tsunami chamado internet.    

quarta-feira, 9 de março de 2011

Desencanto

      Final do dia se aproximando com o sol ja no ocaso prenunciando uma noite quente e ótima para ficar na rua até mais tarde. Tenho feito isso com frequencia, agora que não tenho motivos para estar cedo em casa.
      Lembro-me da primeira tentativa de falar com ela. Depois de passar o dia planejando tudo que diria ao telefone, reuni coragem com o coração aos saltos e disquei os numeros fatais. Quando ela atendeu, perdi o raciocínio. Nesse momento o coração ja saltava na garganta me deixando mudo por um  instante. Quando consegui falar, num prodígio de auto controle, foi somente um "oi, tudo bem?", e apesar da sua voz denotar certo prazer em me ouvir, minhas palavras saíram desconexas, deitando por terra todos aqueles argumentos sólidos que planejara de antemão. Por fim acabei me desculpando por ter ligado e encerrei a conversa rapidamente, como quem foge de um encontro desagradável e imprevisto. Fiquei ali parado, perdido, sentido a frustração me envolver como uma rede. Bem ao meu lado havia um banco vazio, pois estava numa praça, e tudo que pude fazer foi me sentar ali e ficar quieto, o olhar perdido, por muito, muito tempo.  
      Numa segunda tentativa sua voz soou-me fria e distante. Por mais estranho que possa parecer, desta vez foi menos doloroso, menos impactante. Como se estivesse vacinado contra um mal que ja não me teria um efeito tão nefasto. 
      Haveria espaço para uma terceira vez? Sinto saudades, é certo. Mas começo a pensar que estou agindo mal em insistir. Posso dar a entender que imploro por sua volta e não quero isso. Essa dúvida me assalta todos os dias. Ligar e marcar um encontro? E se ela recusar? Na verdade me sinto acovardado; tenho mêdo de ligar e deparar com uma reação agressiva com a qual não saberia lidar.
      Decido caminhar até o Café onde tantas vezes estivemos por horas, em conversas amenas, entre risos, afagos e carícias. Gostava tanto quando ela deitava a cabeça no meu peito me abraçando, enquanto eu deslisava minha mão sobre seus cabelos longos e ondulados, de um castanho brilhante, ou enrolando uma mecha macia entre meus dedos. E o seu perfume? Eu fechava os olhos e aspirava aquele aroma, bêbado de felicidade!
      Entro e me dirijo direto ao balcão. As mesmas pessoas trabalhando, as mesmas mesas e alguns habitués, mas o lugar me parece triste, até um pouco lúgubre. Ou apenas eu mudei, deve ser isso. Corro os olhos em volta e a vejo. O choque é inevitável. Sinto meu sangue fugir da face e uma pressão no estômago quase me deixa sem ar. Ela estava sorrindo quando me viu. Falava com alguém ao seu lado que não reconheço. Tampouco importa. Me dirige um cumprimento monossilábico, com um meio sorriso sem graça e um olhar gelado onde percebo passar uma nuvem de apreensão. Está diferente. Percebo que mudou o estilo de vestir-se. A maquiagem, antes leve, em cores suaves, hoje está mais presente  em cores fortes, o que, apesar de ficar bem no seu rosto, me provoca uma sensação de desgosto. Ja não tem os cabelos longos. Estão curtos, muito curtos, num corte moderno acima do ombro. 
      Depois dessa curta análise, viro o rosto com desagrado e uma melancolia toma conta de todo o meu ser. Decidido levanto-me e saio sem olhar novamente para ela. Ja na rua me ocorre que a pessoa que tanto amei, por quem eu morreria, com quem eu passei momentos os mais preciosos da minha vida; essa pessoa não existe mais. Está morta. Fica a lembrança do que fomos. E a saudade persistirá sem que eu a queira apagar da memória.
Agora sei que posso enfim voltar para casa sem medo de ficar sozinho. Deixei o fardo do passado no balcão daquele Café.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Puma

Era um lindo dia no inicio da primavera e o degelo fazia a correnteza do rio correr mais forte. Eu estava sentado logo abaixo de uma linda corredeira onde a água saltava entre as pedras em contínuo ronronar de gato que recebe carinho no colo. Deixei a vara de pesca montada com molinete descansando na beirada da margem e fiquei olhando a paisagem em volta. Havia muitas árvores novas no outro lado e onde eu estava era um terreno vazio, ondulado e ainda coberto com um pouco de neve caída durante a noite.
Ouvi um ruído leve de algo se arrastando no chão e quando olhei, vi minha vara caindo no rio sendo arrastada por alguma coisa grande na água. Pensei num peixe enorme, mas quando olhei para o rio, para minha surpresa, um leão descia com a corrente se debatendo e tentando se aproximar da margem. Um leão nadando? Nunca pensei que isso fosse possível. Em minha concepção de felinos, eles têm horror a água. No entanto lá estava um no meio do rio e levando minha vara de pesca novinha. Deveria ter caído na água rio acima, e agora tentava escapar. Sem pensar pulei na água na esperança de alcançá-la mas não consegui. A correnteza me levou rio abaixo, por uns cem metros, até que consegui nadar de volta. Ao mesmo tempo que atingi a margem, vi o leão saindo também, uns cinquenta metros abaixo. Ele ainda arrastava minha vara, puxada pelo anzol que aparentemente havia fisgado seu pelo, ou a própria pele, quando descia rio abaixo.
Não podia desistir agora; era uma vara de fibra, com um molinete caro, e eu a usava pela primeira vez.
O animal já fugia pra longe do rio e eu sem titubear fui atrás. Ele subiu por uma elevação do terreno e desapareceu. Corri ainda mais, num esforço de atleta no sprint final da corrida e atingi o topo da elevação. O terreno terminava numa concavidade de uns quinze metros de diâmetro que formava uma pequena arena. E no centro dessa arena, o leão esperava! Via agora que na verdade era um puma. Ele estava sentado sobre as patas traseiras e me olhava com seus olhos caramelados e fixos. Fiquei paralisado, e só então percebi a burrice que foi segui-lo. Ele se levantou e veio caminhando quase agachado em minha direção, o olhar paralisante que não se desviava, fixo em meu rosto e a cauda baixa, como se fosse uma corda estirada e pronta para impulsiona-lo à frente. De repente saltou. Tive tempo ainda de juntar as mãos com os dedos entrelaçados e os braços formando um V invertido, para proteger o rosto, de forma que quando me alcançou, suas patas atingiram meus ombros e pude agarrar sua mandíbula por baixo da garganta.
Cai de costas com todo seu peso por cima de mim. Era um animal tremendamente forte e pesado.
Ao cair, num instinto de proteção corporal, dobrei a perna e meu pé ficou firmemente apoiado na articulação da sua coxa com o quadril. Já no chão suas fauces escancaradas junto ao meu rosto, pude sentir seu hálito fétido em toda sua crueza e selvageria.
Fiz um esforço sobre humano para jogá-lo de lado com a força do meu pé apoiado e um giro de corpo. Ela tombou de lado mas não foi de grande alivio, pois com a força da inércia, e como se fosse um judoca experiente, jogou-me por cima do seu corpo e por sorte caí sobre as mãos e os joelhos. Já me preparava para levantar quando ouvi seu rugido subsônico, paralisante e terrível. Mal tive tempo de pensar na minha morte iminente.
Acordei me debatendo, ainda com espírito de luta. Estava na minha cama, quentinha e aconchegante. Sem neve, sem frio, sem leões ameaçadores.
Me virei de lado com um suspiro e tentei voltar a dormir.
Mas antes de cair no sono ainda pensei uma coisa engraçada. Alguém já sentiu cheiro no sonho? Não me lembro de alguma vez ter sentido cheiro num sonho. Acho que os sonhos não têm cheiro.
Cai num sono sem sonhos até amanhecer.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A vida em suspenso

Quando pela manhã, abaixoSofia Carvalho2 a cabeça no ato de lavar o rosto, me lembro que ela sempre dizia que não usasse sabonete para não ressecar a pele. Me olho então no espelho e por um instante a lembrança dela me olhando faz o ambiente desaparecer. Quase ouço sua voz me dizendo isso e, com o seu sorriso lindo, brigando comigo. Rimos juntos do meu velho hábito e tento beijá-la com o rosto molhado. Ela foge, rindo entre protestos. A imagem se esvai. Meus olhos vermelhos de insônia não deixam dúvidas. Foi-se .Só resta-me olhar todas as manhãs esse rosto macilento e triste, esses olhos cansados, minha testa enrugada, emoldurada de cabelos cinza, o que aumenta o aspecto triste de ruína no que sobrou depois da queda.
Meus lábios murmuram palavras de escusas que não sei se poderiam um dia ter surtido efeito. Nada é pior que a incerteza e ainda mais a incerteza do que poderia ter sido. Procuro nos meus olhos a razão da culpa que me condenou e me sinto pior por não vê-la tão certa quanto gostaria.
Melhor seria me saber culpado. Ajudaria a suportar o castigo. Saber-se culpado alivia a carga da condenação.
A água fria me trás o dia para suportar e olho com desinteresse pela janela. O sol ainda não despontou e o dia promete ser frio e nublado como num inverno prolongado e sem vida.
Meus dentes, escovados com atenção acentuada, me lembram que um dia pensei em endireitá-los. Preciso fazer isso, sempre penso. Outra instrução dela, claro que sem nenhuma imposição. A toalha me esfregando o rosto me diz que o melhor seria seca-lo sem atrito para não prejudicar a pele.
Caminho pensativo pelo corredor que me leva à cozinha. Vou descalço. Sentindo a frio do piso sob meus pés ainda quentes me lembro com saudade que ela também gostava de andar descalça pela casa. Ainda vejo seus pés, brancos como mármore num movimento de dança sensual.
Um café me estimularia agora. Quem sabe um alento novo, uma energia que me dê a alegria para suportar esse dia que se anuncia sombrio.
Erro a mão no café. Ficou amargo em excesso. Pode ser a minha predisposição para coisas amargas que me fizeram dosar o pó de forma exagerada. Tento um pouco de mel para aliviar o amargor e até que alivia mesmo. Tomo um copo inteiro com deleite e lentamente, sorvendo cada gole escaldante, sentindo o estímulo da cafeína quando entra no meu sangue quase que de imediato.
Me reanimo; olho para fora e vejo que uma chuva fina começa a cair. Que se dane, não vou sair de guarda-chuva. Vou ao quarto e calço uma bota fechada com meias grossas. Detesto ficar com os pés molhados. Visto uma jaqueta impermeável e retorno à cozinha. Outro café, desta vez preguiçosamente, olhando pela janela. Nunca estivemos juntos quando chovia.  Eu, pelo menos, nao me lembro. Talvez por um efeito do sentimento que nos unia, só me lembro dela em dias claros de muito sol. Realmente, a vida, o mundo, as pessoas, tudo era luz, tudo era radiante quando estava junto dela.
Termino o café e deixo a xícara sem lavar em cima da pia, os olhos marejados; são lágrimas insistentes que sempre afloram assim pela manhã.
Alcanço a sala e abro a porta resoluto. Desço num passo firme o único lance de escadas e ganho a rua sob a garoa e o vento.
Preciso sugar um pouco dessa vida que se agita na cidade. Não posso me dar por morto e desistir.
Quando estiver refeito dessa modorra, no final do dia, ligo pra ela, e tento de novo. E assim farei amanhã, e depois, e depois... sei que ainda vou dormir em agonia. Mas tentarei.