Minha foto
Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Minha vida minha vida
que faço eu de tí?
Ficar não posso que assim me mato
Partir não sei que onde ir não tenho
Sem alento me sento e ponho no CDplayer uma cantata de
Bach

momento sublime outro mundo me envolvendo
fuga da realidade fuga...
e enquanto meu espírito levita na sonoridade da sala
busco meu controle na ilusão de ser eu pacífico e lúcido.

sábado, 10 de abril de 2010

53
Veio então o tempo de falar de netos,
e me rio de tudo, da ironia instalada em minha vida.
A memória me traz apenas lembranças felizes
e desejo retornar ao tempo de ouvir Bob Dylan no gravador.
Trinta, quarenta anos se resumem numa semana,
onde foi o tempo?
Meu desejo ainda vivo reclama a mulher que não veio
e meus olhos passeiam pela paisagem entardecendo
quando uma vaga tristeza perpassa meus sentimentos
ao sentir que a hora da partida se aproxima.

domingo, 14 de março de 2010

Não quero visitas,
não quero minha casa cheia de amigos,
palavras soltas aos borbotões em sonoridades hilárias.
Se dissesse que quero ficar sozinho seria mentira,
pois queria mesmo era uma presença, única, plena,
uma voz!
que me enchesse de júbilo com seu timbre ímpar.
E que me sussurrasse uma musica linda
num repertório de palavras banais
completamente sem sentido para minha razão.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tracy Raver

E as guerras passaram.
A tormenta se foi, perdendo-se no horizonte,
sublimada em névoa de garoa fina.
Um silêncio me envolve indagador nessa tarde de poente,
quando raios dourados ainda fazem longas sombras nas árvores
e uma paz estranha me deixa incomodado.
Vejo os pardais a brincar na folhagem, vida renovada.
E esse medo de perder tudo, esse momento precioso
me faz quieto, em silêncio reverente.
Sentado num banco de pedra de jardim público
olhando as pessoas que passam, levando batalhas nos bolsos,
me admiro delas e de mim mesmo que já fui assim.
Olho à minha volta e respiro fundo,
me levanto e em passos lentos
caminho em linha reta, em direção aos meus dias seguros.
E logo estarei em casa para uma sopa fumegante de aspargos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Me cansei de poesia
me cansei de todo verso inútil.
Estou aqui sentado à espera do momento
em que deveria apagar todas as reminiscências,
todas as dores; que o poeta vive delas todas
oriundas de fatos ou não, criadas por vezes
na sua imaginação fértil, e mesmo assim vividas em plenitude.
Mas me cansei.
Estou para ser materialmente prático
egoísta, e estipular metas de vida.
Sem sonhos, sem ilusões, sem amores falsos,
e nenhum transtorno se ela não me responder amanhã.
Estou pronto, uma arma na mão
uma corda pendurada no teto
e o fim que se avizinha.
E no entanto
a coragem se esvai na primeira inspiração.
Saudade sem tempo,
sem direito à lembrança.
Saudade de um dia de frio intenso,
do salmão desandado no almoço de domingo,
desagrado passável, risível em cumplicidade.
O pinhão saboroso na sala
em frente à televisão,
o acidente da câmera, caindo sem cuidado
no gramado do jardim na hora da foto.
Saudade do Matignon
em noite de lua e vento frio,
o passeio no parque,
o passeio na cidade em tarde banal,
tarde de televisão, olhando fotos no computador.
Café da manhã com mel e vinho seco na mesa.
Calma de horas sem porvir
e nenhum tempo para Ser...
Oh! que pena! sem tempo de Ser!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Quotidien

fotos-mulheres-Jan-Scholz-09

La vie...
les jours qui passent
les heures qui coulent,
la soif...
un baiser que je ne peux plus
un sourire que je ne vois plus
une caresse que je n'aurai plus
une vie
qui me le répète à tout instant,
arrête!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Saudade

Fabio Rowedder 
Quando as margaridas florescem, eu olhando o campo repleto de branco,
me vem um aperto no coração, uma coisa que devia lembrar...
um rosto, uma fala, um acontecimento que se apagou... 
e faz muito tempo...!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Benjamim Vieira       Talvez um dia

eu tenha tempo de explicar de modo arcaico

o sentimento AMOR.

Pois os dialetos deste planeta

têm significados e adjetivos muito limitados

para tão sublime sentimento.

(Luz)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Noites mornas.

O silêncio que me incomoda agora

em contraste ao silêncio de outrora

onde duas estrelas transbordavam de energia.

Sinto frio nas noites de verão,

e o outro silêncio, que silêncio!

transbordava de vida, de luz, de calor

e tudo era caminho, viagem, erva renascendo no jardim

e corações criadores de estrelas

em silêncio!

Triste

Queria saber, ah! como queria saber

o porquê de silêncios tão marcantes

de olhares mudos que falam à alma,

de sentires sem toque, palavras que acariciam.

Almas que se beijam no pensar uníssono,

encontros improváveis nos sonhos de noites quietas,

e do amor pairando acima de tudo,

deixando da vida o duro labor diário

lirismo, viagem onírica

mundo que desmorona ao primeiro raiar do sol.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um minuto a meio da tarde.

Num minuto isolado,
no meio do dia, eu me lembro.
E então me da uma saudade tão profunda,
tão intensa, e ao mesmo tempo tão inócua,
que dura mesmo esse minuto e some
diluída nos afazeres da hora.
O que é a desesperança?
O que é a resignação?
A aceitação da fatalidade?
É como a morte de um ente querido.
Sabemos que não volta mais,
que nunca mais vamos ver
e ainda assim por um tempo talvez longo
talvez bem curto, quem sabe,
ainda mantemos a saudade.
 

Um piano ao crepúsculo.

Caminhando sozinho numa rua silenciosa; inicio de uma noite cálida de verão, meus passos ressoando no calçamento desgastado e limpo e pensando em tantas andanças, tantos caminhos trilhados, imaginando se ainda teria muitos a percorrer ou simplesmente se ja me aproximo do fim, sem contudo me dar conta.
Passando por uma casa de varanda enorme e bem arejada, quase sentindo o aconchego da hora crepuscular em suas cadeiras de metal cromado, de repente um piano... alguem tocava um piano àquela hora magica do dia.
Acordes que voando pelo espaço vieram me abraçar, envolveram-me todo em sons deliciosos, puros, calorosos, quase podia respira-los ali parado, estático, olhando a varanda vazia, e me deixando preencher de sons. 
Eu quase podia vê-los, eram palpáveis, materializados em cores vibrantes, corriam os acordes pelo meu corpo, eletrizantes, eram a mim direcionados.
Não conhecia a melodia, mas era linda, num compasso lento, cada nota ribombava com forte eco em meu peito, os acordes numa harmonia singela e lúcida. 
Desejei conhecer o pianista, ou seria ela? Desejei sentar-me ao seu lado naquele instante, admirar suas mãos passeando pelas teclas, seus dedos finos leves e ligeiros em toques suaves.
Imaginei o sorriso angelical aflorando em seus labios, pois eu estava ali ouvindo enlevado, num instante congelado de felicidade infantil.
De súbito o silencio... silencio mortal caindo sobre a rua e as luzes foram se apagando nos meus olhos, agora olhando a rua nua e sem vida.
Segui meu caminho solitário novamente, mas levando comigo uma alegria calma de quem recebeu um presente secreto de uma pessoa querida.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Chuva fina que bate na minha vidraça,
chuva fina que rola na calçada,
chuva fina e fria que vem do céu imenso e cinza.
Oh! chuva fina e fria que cai como um véu sobre mim
quando tento fugir caminho afora, do que sou hoje.
Chuva fina e fria que me fere, me oprime,
chuva fina que deita lembranças em minh'alma.
Oh! chuva, chuva insistente e triste,
o que queres me dizer com teus fios de seda
dissolvendo-se em meus cabelos caídos
sobre meus olhos úmidos, em disfarçada saudade?
Conta me dela ao menos,
diga-me onde anda,
em que caminhos vagueia sob tua insinuante teia,
conta me dela ao menos, se abriga-se sob um telheiro seguro 
ou como eu percorre ainda uma estrada infinita,
nós dois perdidos,
eternamente desencontrados e sós.
António de Bastos

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Rod Rodrigo Silva
E meus passos vão firmes e seguros, e vou tranquilo,
pois amo a vida e sei que ela me protege, sou seu filho.
Nenhum receio nas horas mais difíceis, pois sei
o caminho mais íngreme leva ao topo da montanha
de onde descortina-se a beleza do vale
e quem sabe, o mais puro pôr-do -sol.
Nessas horas eu me aquieto,
sento e espero a passagem do tempo
e deixo vergastar-me o rosto a fúria das tempestades.
Sempre virá o dia depois, num circulo eterno
de retorno, retorno, retorno
e nesse movimento estarei de volta aos dias de sol,
aos momentos de adoração ao amanhecer
quando cantarei a plenos pulmões minha alegria para o mundo
ou simplesmente usarei algumas horas
assobiando uma cantiga de amor
com um lindo sorriso maroto iluminando meus olhos.