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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Diga que não posso ser eu
constante, genuino e mordaz.
A franca palavra lançada no meio da sala.
Serei então fragmentos
impróprios, emprestados de papeis secundários
e o riso falso, a felicidade vivida no palco,
até que meu coração expluda na gaiola
de angustiantes grades de tédio.
Diga então que não posso ser
e outro virá
ao cair da noite, ao amanhecer, quem sabe
como algoz
um outro que não eu
a pisar meus sonhos, a cuspir quimeras em meus dias
a delatar meus prazeres secretos
e violentar a paz monástica dos meus dias anciãos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Não gosto de postar obras de outros autores aqui, mas numa noite como esta em que me falta palavras pra dizer o que sinto, ninguem melhor e mais autorizado que possa expressar com suas palavras meus sentimentos. Pablo Neruda.  

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada

e tiritam, azuis, os astros à distância".

O vento da noite gira pelo céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis e por vezes ela também me quis.

Em noites como esta apertei-a em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis e às vezes eu também a queria.

Como não ter amado seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela.

E cai o verso na alma como o orvalho no trigo.



Que importa se não pôde o meu amor guardá-la?

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. À distância alguém canta. A distância.

Minha alma se exaspera por havê-la perdido.


A mesma noite faz brancas as mesmas árvores.

Já não somos os mesmos que antes tínhamos sido.

Já não a quero, é certo, porém quanto a queria!

A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.

Ah, é tão curto o amor, tão demorado o olvido.

Porque em noites como esta a apertei nos meus braços

minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Mesmo que seja a última esta dor que me causa

e estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito."

sábado, 14 de janeiro de 2012

Os olhos eram duas fogueiras azuis
intensas 
que me diziam da incerteza, do medo
e eu sabia o que poderia haver por trás deles.
O deserto crescente aproximando-se, 
abarcando com sua aridez toda a primavera incipiente,
e nenhuma lágrima
que alimentasse aquelas raízes mal brotadas.
As mãos, tão outrora firmes, poderosas!
enérgicas e suaves a um tempo,
já distantes agora e sem vida que me transmitam.
Fuga inquietante do olhar, desassossego
e a fatalidade inexorável do afastamento
a nos olhar, nos olhar
e sem que pudéssemos evitar...