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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

sábado, 30 de novembro de 2013

Tarde de prata nas calçadas da cidade.
Entre silêncios, zumbidos de insetos e gritos de crianças à distância, 
procuro por ela quando o carrilhão da igreja soa as horas quebradas do dia.
Pela fresta da cortina meus olhos vasculham o pátio
onde labutam as formigas sob o sol inclemente de novembro e de volta ao sofá,
velho amparo, carcomido, desbotado e puído pelo tempo,
meus braços alcançam o vazio da existência.
O ar frio que sopra na sala não vem carregado com o som do seu riso
e então saio à varanda
e através do jardim, sob a asfixia da canícula
apenas olho a rua,
inconsolado.

sábado, 2 de novembro de 2013

Hoje minhas gengivas sangram no calor da noite
e odeio as preces que meus lábios podem proferir.
O asco me invade ao ver o sorriso odioso no rosto do vizinho
ao passar por mim todas essas manhãs ensolaradas
e percebo que de fato me cansei do planeta medíocre em que habito.

A hora da partida é um incógnita.
Não posso chamar, pois é incerto se serei ouvido.
Me canso da espera quando sinto que o dia renasce
e um cansaço profundo prostra-me a alma numa alcova suja.

Mais tarde, pondo meu chapéu de abas largas e cor preta
sairei às ruas para mais um dia de cordiais cumprimentos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Compartilho da melancolia das árvores em meio à chuva

Compartilho da melancolia das árvores em meio à chuva
quando as flores se foram e troncos luzidios e escuros
nus e desanimados
cambaleiam nas calçadas indecisos
enquanto outros pelos parques em sussurros 
lamentam o cheiro de musgo e das folhas mortas maceradas
sob meus pés.

Na baça luz matutina vêm os homens cambisbaixos e silentes
a lançar um olhar
de soslaio talvez e apenas isso.
A urgência de ganhar a vida os levando para longe
para um sonho (que sonham, os homens!),
deixam as árvores que perderam suas folhas, suas flores
no vazio das calçadas
no silêncio dos parques
com o silêncio dos seus galhos vazios
na chuva constante, trama sutil
silenciosamente fria.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Correm as horas pela manhã já fria,
e no dia cinza, la fora, a chuva entristece os cães da rua.

Da minha janela, janela da alma 
vejo soturnas figuras encurvadas
caminhando sem vida e nenhuma dor que as traga de volta.

Silencio sobre papiros antigos
e em meio a rascunhos amarelos
ando à procura de vida.

Nenhum traço de sabedoria, nos homens que passam,
nenhum gracejo nas paginas de histórias antigas.
Apenas eu observando sobre a efemeridade do mundo
as coisas passageiras, como essas imagens encurvadas
e estas cartas de vidas quebradiças que se foram.

Uma voz me chama do interior da casa
e à distancia um rosto, a fitar-me com candura,
enquanto um sorriso de garoto incendeia meus olhos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Hoje pela manhã recebi em meu e-mail pessoal um aviso de postagem neste blog "feita por mim mesmo" e da qual não tinha conhecimento. Ao conferir o painel de configurações do Blogger so pude concluir que meu e-mail do Google foi invadido e através do mesmo acessaram este blog, deixando a tal postagem que em nada condiz com a proposta do mesmo e deixando a minha configuração de avisos por e-mails com uma lista de endereços que desconheço.
Peço desculpas aos leitores e àqueles que porventura receberam postagem ou links partindo deste blog sobre qualquer conteudo que fuja da proposta do Arroz Queimado que é e continuará sendo poesia e musica.

Flavio Dutra, proprietário do Arroz Queimado.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Manhãzinha ainda,
ainda envolto nas névoas do sono
sinto teu perfume ao meu lado.
Abraço a lembrança da sonoridade límpida
da tua risada
preenchendo os vazios no meu quarto,
iluminando sombras,
alcançando os recônditos esquecidos da casa,
não me deixando espaço para outra ação
que não fosse olhar para você,
enlevado!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Vi teus olhos hoje
numa hora em que o verde da folhagem
das palmeiras imperiais
recortava-se contra o azul-turqueza
de um céu de verão e o sol, os ultimos raios de sol
de uma tarde já adiantada
salpicava de brilhos fugazes suas folhas ao balanço do vento.
Vi  teus olhos no verde das palmeiras
lavados de chuva e brilhantes de sol
e minha alma sorriu.

domingo, 4 de novembro de 2012

De onde venho o espaço é meu lar.
Lá, entre estrelas, cometas, nebulosas
e constelações que nascem como bebês.
Sou do pó das galáxias, e sou da luz de bilhões de sóis,
sou vento girando em torvelinhos cósmicos
indo ao encontro do desconhecido,
pois saber é meu destino
e mais eu busco, e mais eu quero
e mais e mais e mais e mais
infinitamente descobrindo, infinitamente buscando
infinitamente sonhando...

sábado, 30 de junho de 2012

Borderline

    O dia começa invariavelmente com aquela sensação de sonho. Um distanciamento da realidade que desde o despertar me põe numa bolha impermeável, impedindo o contato direto com a realidade. Faço um café, na esperança de que isso vai me deixar melhor mas parece não fazer nenhum efeito na minha disposição. Apanho um livro na estante, voltando em seguida ao leito. Uma música persiste na memória. Vou ao computador e seleciono o intérprete para tocar no player. A musica bendita não vem, me irrito e desligo tudo. Volto ao quarto e ao livro. Leio varios capítulos sem me concentrar verdadeiramente no enredo. Um olhar no relógio me diz que já é hora de almoço. Não tenho fome , mas mesmo assim resolvo que tenho de tomar banho e sair, ir ao supermercado, coisa que sempre reluto em fazer, não pelo trabalho de comprar coisas para meu sustento, mas sim pelo incômodo de ver  pessoas.
Depois de banho tomado, penteado minhas madeichas (cabelo grande e descuidado), vou para o sacrifício. Até que não é tão mal. Cumprimento com prazer os conhecidos que encontro. Até com alegria sinto o sol do meio dia, seu calor, a energia da rua ensolarada, a satisfação das pessoas em falar comigo. Vejo isso em seus rostos, radiantes ao me encontrar.
No mercado, compro pizza, verduras, legumes, tudo muito pouco, o suficiente para uma pessoa consumir por uma semana, ovos enfim, gosto de ovos fritos, e alguma cerveja. Essas na verdade, uma quantidade razoável para um fim de semana.
De volta ao lar. Abro a primeira antes de desembrulhar as compras e vou tomando ao mesmo tempo que lavo alfaces, rúculas, seleciono rabanetes para guardar, separo salsa para temperos futuros, e os tomates bem embrulhados num saco plástico para melhor conservação. Assim se vão as duas primeiras, com alegria, com a disposição de um noivo que tem como certo a felicidade depois do casamento. A pizza fica de prontidão, à espera para quando terei fome.
Ligo o computador na esperança de que tenha alí alguma coisa que me faça a vida mais estupenda, mais graciosa, mais interessante enfim, e em meio às midias sociais vou me entregando ao tédio da tecnocracia. Mais uma cerveja, duas, três, e o dia passa em frente ao monitor. Baixando musica que não terei tempo para ouvir, livros que nunca vou ler, informações que não vão realmente me servir de nada na segunda feira de sempre. Até que chega o crepúsculo. Crepúsculo que não vejo, afinal estou aqui ligado numa bela imagem de qualquer paragem num fim de mundo que não me diz respeito. Meu pôr-do sol, que deveria ser só meu, me passa despercebido e quando vejo já é noite.
Vou à geladeira e abro a décima cerveja; quando vou encher o copo no balcão, vejo que ja tenho outra aberta e ainda sem começar. Porra, me digo. Guardo-a com raiva e depois encho o copo com a que estava à espera. Acho engraçado, em silêncio, sem rir-me do fato. Tomo outro copo num trago e me da uma vontade de urinar. Me viro e abrindo o fecho da calça urino na lixeira da cozinha. Nem sei verdadeiramente o que faço. Cansado, me sento um pouco na cadeira e começo a cochilar. A cabeça pende sobre o peito e fico assim por um tempo indefinido. Acho que durmo mesmo, pois quando alarmado abro os olhos, consulto o relogio e percebo que se passou muito tempo. Tenho sono. Me levanto e vou ao quarto, onde me jogo na cama e adormeço.  

sábado, 2 de junho de 2012

Gostaria eu de voltar a escrever, mas algo me aconteceu e não mais concateno meus pensamentos; minhas ideias até fluem mas não as coordeno mais, me escapam sem controle e um lindo verso que poderia gerar um belo poema simplesmente desaparece em meio a um turbilhão de imagens confusas e quando o procuro, foi-se, não está mais la.
É uma agonia, é massacrante. Essas ideias me acometem pela madrugada e depois não consigo mais dormir. Me assaltam no meio do dia e naquele momento são de uma clareza cristalina, para logo depois desvanecerem-se como fumaça ao vento. Havia algo em mim que solidificava essas imagens antes de transpô-las ao papel. Esse algo perdeu-se. Era a argamassa que unia as frases, e do conjunto fazia o edifício, pequeno que fosse, mas habitável. Não tenho mais isso, como o confeiteiro que perdeu a mão para fazer seus quitutes. Estou perdido. Sem poder me expressar pela escrita , algo me falta; um teto, um chão, um caminho seguro, um lar. Sei não, mas acho que não sou mais. Não sou.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Era um dia de calor abrasador e eu
quieto e remoendo reminiscencias, sentado no meu caixote de maçãs,
me ressentia de coisas acontecidas que não entravam no meu entendimento.
Pode um amor jurado eterno, morrer em dois dias?
Pode a visão da pessoa perfeita se desfazer no primeiro deslize?
E eu me desesperava por entender as razões que a razão humana inventa
a seu bel prazer
para justificar seus erros, antes ditados por interesses camuflados em altruísmo.
E depois de um infinito tempo de repouso e cansaço de alma
me dei conta de que tudo não passa de vaidade extrema.
Deixei meu caixote de maçãs, me refestelando ao solo
e dormi o sono dos justos.



quarta-feira, 28 de março de 2012

Não escrevo mais , é só isso
morri, provisoriamente, de uma morte intempestiva
e no meu funeral nem eu compareci.
Mas estou morto é só isso
e ninguem sabe; cuidado! é segredo!
Quando eu voltar da minha morte, se voltar,
te aviso.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O dia começou bem estranho. Algo me incomodava desde os primeiros minutos logo após o despertar. Conheço bem essa sensação. É quando meu corpo me diz que vou me arrastar pelo dia como um molusco, um caramujo ou simplesmente uma lesma em todos os sentidos pejorativos.
E mesmo que tome três cafés sem açúcar na parte da manhã isso não ajuda, até me deixa mais ansioso em tudo que faço. Deito alguns palavrões boca a fora quando não acerto um detalhe no que estou fazendo ou quando o site requerido demora a carregar. E assim a tensão vai aumentando no decorrer do tempo. Quase expludo no meio do dia e fecho tudo para me recolher numa introspecção à hora do almoço. Almoço é modo de falar pois não há almoço propriamente dito. O estômago não resiste a mais que uma fatia de pão com gergelim. Ou uma colher de mel. Volto logo depois aos afazeres que o dia exige mas, ao meio da tarde preciso parar novamente. Uma angústia me domina e preciso pensar. No entanto não penso. Somente sinto. Fecho tudo de novo e me recolho à cozinha numa urgência de fazer um lanche. Hora do café da tarde! Vamos lá.
Ponho a frigideira no fogo, quebro um ovo no óleo quente e observo todo o processo cuidando muito para não quebrar a gema. Coloco duas fatias de pão integral no prato e, quando no ponto, deito o ovo por cima. Apenas isso, sem me esquecer de alguma pitada de sal.
Me sento então e cortando tudo em fatias, pensativo, aquela angústia volta com toda sua crueza e declara seus porquês. Penso enfim com saudade. Uma saudade antiga. Uma saudade de eras. Uma saudade cuja idade se perde no principio dos tempos, me parece.
Enquanto como meu lanche, lágrimas sinceras correm pela face, se misturam no pão e temperam com um sabor de jiló o que antes era mais um hábito insôsso. Penso comigo, se alguem me visse agora seria realmente cômico. Daríamos boas risadas dessa situação.
Pego a toalha de papel e seco meu rosto, meus lábios e por fim assôo o nariz. Choro sem razão, me digo. Por fim numa reação de revolta meu nariz se irrita e espirro. Duas, três vezes. Termino meu lanche e vou ao banheiro lavar o rosto.
Ainda tenho uma boa parte do dia para aguentar.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O que fazer se havia entre nós meio século de silêncio e medo
e grilhões que não se quebram num único alvorecer?
Sinto pena de mim, se a mandei embora por um receio infundado
de perdê-la.
Ela partiu e ainda no caminho, um olhar sobre meu rosto
num pedido mudo de perdão; perdoar?
o quê? Deus meu!
e quando desapareceu nas brumas da memória
fiquei ali, parvo olhar vagando no infinito
com meio século de medo,
a dilacerar-me os ombros.