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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

       Era uma visão dantesca e antes de tudo, um inferno pessoal.
      O casebre onde morava, ou melhor, onde se escondia das intempéries, não era mais que uma choça de duas peças com um tosco fogão de pedra logo na entrada, num canto um pouco ao fundo, sobre o chão molhado. O teto baixo e a exiguidade da peça, deixava sempre um odor de fumaça produzida por lenha verde que a tudo impregnava mesmo quando não havia madeira para fazer fogo. Nas poucas vezes em que saía, deparava com a visão degradante do que seria uma rua, ladeada de outros casebres miseráveis como o seu, com a madeira enegrecida pela podridão, onde a presença do bolor era palpável.
       A rua propriamente dita não passava de uma viela afundada formando um canal raso onde, em dias de chuva, a lama se misturava aos montes de fezes que as pessoas não se importavam em pisotear no seu vaguear cotidiano, numa vivência sem motivação, sem horizontes, desprovida de porvir.
      Os dias passavam sempre negros, mesmo que o sol por vezes despontasse entre as nuvens baixas que a tudo encobriam. Esse tempo horrível, somado às condições subumanas, tinha um efeito nefasto sobre o seu caráter e sobre o seu humor. Vivia num ambiente opressivo onde eram frequentes as querelas, constantes altercações por um nada, um olhar mal dirigido, uma palavra mal colocada, ou a disputa por uma pouco mais de espaço a que alguém se desse o direito. Entre todos talvez fosse o mais ranzinza, o briguento, sempre a vociferar com as pessoas na sua voz estridente e seu vocabulário repleto de impropérios. Não gostava de ninguém. Desconfiava de todos e usava isso como escudo na luta pela vida. Olhava sempre o semelhante com olhos de azedo ciúme e nutria um ódio secreto por tudo que o rodeava. Passava os dias fechado no seu mísero espaço e quando se via obrigado a sair em busca de alimento e água menos suja para mitigar a sede, era com profundo rancor que olhava seu mundo miserável, nauseabundo e triste.     
     Odiava com especial fervor a lama fétida que o rodeava, a umidade constante que impregnava as roupas, o mau cheiro que a tudo permeava e o frio. O frio penetrante que o perseguia até os recônditos da alma. E sua alma sofria. Enquanto seu ego berrava seus instintos bárbaros, enquanto seu corpo se debatia nessa luta insana e sem trégua; sua alma sofria.
      Porém, nada permanece e nenhum sofrimento é eterno.
   Numa noite como outras quando voltava ao abrigo ziguezagueando na penumbra e evitando contato com aqueles que se aqueciam em fogueiras mortiças, alguém saiu das sombras, uma mão bendita levada a executar um gesto que pensasse talvez, fosse de vingança, mas que não foi mais que um gesto de misericórdia e o esfaqueou no abdome.
     Morreu sem dor, sem resistência, entregando-se ao destino.  Sem rancor, sem desejos.            
      Mergulhado num oceano de alívio.

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre a relva verde, próximo ao espelho do lago,
dia de sol dourado e céu azul;
deitado na grama macia eu ouço,
uma música que a tudo permeia,
a sinfonia univérsica,
enquanto aspiro de olhos fechados
o aroma da folhagem que me rodeia.

domingo, 11 de setembro de 2011

Hay que endurecerse...


Devemos levar a guerra até onde o inimigo a leve: à sua casa, para seus centros de entretenimento; uma guerra total. É necessário para impedi-lo de ter um momento de paz, um momento de tranquilidade fora de seu quartel ou mesmo dentro, é preciso atacá-lo onde quer que seja; fazê-lo sentir-se como um animal encurralado onde quer que ele possa mover-se. Então, sua fibra moral deve começar a declinar. Ele vai ser mais bestial ainda, mas vamos observar como os sinais de decadência começam a aparecer.  (Che Guevara. Mens. ao Tricontinental - 1967)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O mais triste, amor
é essa noção de que todos os poemas que fiz com ardor
só farão sentido no fim,
quando nos últimos minutos da tua vida, lembrar-te de mim,
desejando-me ao teu lado,
me chamando no íntimo do teu coração magoado;
e já terei partido,
triste, enfim no abandono, perdido,
e não poderei te achar
e teu remorso consolar.
Eu já terei partido, amor;
e mais doída do não saber a dor,
se nos veremos novamente e quando,
quantas eras ainda, esperando.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quando a mente se recusa a pensar
olhando de longe um improvável espetáculo de recordações,
um circo grotesco, o outrora tão íntimo diálogo.
Nada é real, nem o colo da mulher que vem no início da noite
com sua voz macia e enganosa tormenta dos sentidos.
Nem o coração que palpita pelo ondulante quadril e curvas esmeradas,
nem o sonhar , no desejo noturno, até o seguinte embate de volúpia.  
Nada sobrevive, nada permanece, nada revigora no amanhecer seguinte.
Quase nada fica,
quase nada.
Apenas um segredo na madrugada, intimamente resguardado,
tão sofrido, tão querido, tão zelosamente preservado...
do teu rosto...uma lembrança.

O músico.

Solenemente sentou-se
dedilhou as cordas convicto
e da partitura da alma
tirou os primeiros acordes
da vida.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ge








C'était...








Une jolie femme aux cheveux blonds
sur les épaules nues.
Son corps langoureux s'abandonnait
sur le divan rouge
sous la lueur du jour finissant.
Et comme si quelqu'un l'avait appelée,
son visage me regardait de loin...
de très loin, à travers le temps.




Gemária Sampaio é minha amiga e proprietária do Chá das Cinco. Visite.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um Pinot Noir
ao som de "Ballad Medley" de Charlie Parker.
Uma vibração percorrendo minhas veias, nos acordes do sax alto
distendendo meus tendões,
injetando-me uma leveza de alma que chega às lágrimas.
Que homem pode tocar uma coisa dessas?
Homens não tocam assim, homens são maus.
Esse que toca não é homem, é um demonio que brinca com acordes,
e que bem me faz!





sábado, 25 de junho de 2011

Quero pedir perdão
a você que me olhava naquele dia
com olhos fixos no infinito,
e via tudo que havia de fantasmas, menos a mim sentado na tua frente.
Inuteis braços cruzados numa defesa irracional.
Eu não queria, te juro hoje, tanto tempo já passado
e  mesmo que já não faça grande diferença depois da tormenta.
Mas me perdoe.
Isso é tudo que te posso dizer quando o tempo se abate sobre mim
e a dor de olhar o passado me esmaga com todo seu peso.
Queria poder voltar e te abraçar naquele momento
mas o tempo não perdoa,
não dá uma segunda chance.
E mesmo este pedido de perdão não me alivia, pois
o teu perdão também não me aliviaria
quando a consciência do meu erro me atormenta por noites sem fim.

sábado, 14 de maio de 2011

O Abismo

Eu a vejo e não posso toca-la.
Vejo seus olhos em súplica muda
e seu perfume, seu calor, seu hálito na minha boca
são lembranças pungentes no meu corpo carente.
Saltaria sobre esse espaço, a alcançar a voz que se calou
não fossem meus membros já trêmulos.
A força das minhas asas, vi escoar pela terra adentro
perdendo-se na vegetação
e o musgo do tempo a tudo encobriu.
Eu a vejo e não posso toca-la.
O fosso mais se aprofunda quando chamo
e então
o que faço é permanecer estático, olhar magnético
enquanto a vida se vai, lentamente
ou até que meus pés, esgotados
criem raízes.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Aproximo-me dela com respeito
eu a olho com respeito
amo seus olhos negros e seus lábios vermelhos de um vermelho pálido
sobre a pele morena.
Seu sorriso me liberta, já o tenho dito e me libera dos meu temores
mas tenho por ela um respeito que não posso ignorar
isso não sobrepassa meu desejo 
e meu beijo é carregado de volúpia e uma felicidade sem conta
então me vem a vaga ideia de que esse amor nasce sobretudo
desse respeito que sinto, por ela
e que produz em mim uma vontade de ser mais do que sou
de crescer, ser mais homem, se ainda fosse possível, se houvesse tempo
para enfim, merecê-la.

sábado, 26 de março de 2011

Já na aurora, não vivo
sinto raiva de tudo
meu dia se arrasta em tarefas imensas
receio tudo, tudo é fardo, é dor
o desleixo, o despropósito do abandono
o cair a cada minuto, desacreditado
a tentativa vã da retomada no rumo certo
a desistência a cada hora fatigante.
O querer sair e ficar, atônito
o ficar e querer sair, atônito.
Uma vontade de nada
um choro que não vem
uma agonia sem nome
um atordoamento de limbo
um desistir de sonhos.
A desistência e enfim o sono pesado da fuga.

E quando me assalta a descrença
e me entrego nessa morte cotidiana
teu sorriso vitorioso me alcança ao fim do dia
resgata-me do abismo
e mais um dia é vencido,
os temores afastados,
serei novamente criança, por mais uma noite
até o alvorecer.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O mundo caminha para, em pouco tempo, ser uma única democracia, sem nações, sem bandeiras, sem fronteiras;ou seja, sem egoísmo. Os fatos falam por si. Ditaduras vão cair, regimes fechados vão ruir internamente. Uma fagulha de informação é um estopim que deflagra a bomba da inconformidade. A internet faz isso no mundo de hoje. Ai de vocês tiranos corruptos e ladrões. Ai de vocês, governantes "semi-deuses" que se perpetuam no poder à custa do sofrimento e da ignorância do povo.
Cairão. Têm seus dias contados. O Homem ( a humanidade )se levanta numa atitude universal, para ser dono do seu próprio destino. E a onda avança...! Ninguém segura mais esse tsunami chamado internet.    

quarta-feira, 9 de março de 2011

Desencanto

      Final do dia se aproximando com o sol ja no ocaso prenunciando uma noite quente e ótima para ficar na rua até mais tarde. Tenho feito isso com frequencia, agora que não tenho motivos para estar cedo em casa.
      Lembro-me da primeira tentativa de falar com ela. Depois de passar o dia planejando tudo que diria ao telefone, reuni coragem com o coração aos saltos e disquei os numeros fatais. Quando ela atendeu, perdi o raciocínio. Nesse momento o coração ja saltava na garganta me deixando mudo por um  instante. Quando consegui falar, num prodígio de auto controle, foi somente um "oi, tudo bem?", e apesar da sua voz denotar certo prazer em me ouvir, minhas palavras saíram desconexas, deitando por terra todos aqueles argumentos sólidos que planejara de antemão. Por fim acabei me desculpando por ter ligado e encerrei a conversa rapidamente, como quem foge de um encontro desagradável e imprevisto. Fiquei ali parado, perdido, sentido a frustração me envolver como uma rede. Bem ao meu lado havia um banco vazio, pois estava numa praça, e tudo que pude fazer foi me sentar ali e ficar quieto, o olhar perdido, por muito, muito tempo.  
      Numa segunda tentativa sua voz soou-me fria e distante. Por mais estranho que possa parecer, desta vez foi menos doloroso, menos impactante. Como se estivesse vacinado contra um mal que ja não me teria um efeito tão nefasto. 
      Haveria espaço para uma terceira vez? Sinto saudades, é certo. Mas começo a pensar que estou agindo mal em insistir. Posso dar a entender que imploro por sua volta e não quero isso. Essa dúvida me assalta todos os dias. Ligar e marcar um encontro? E se ela recusar? Na verdade me sinto acovardado; tenho mêdo de ligar e deparar com uma reação agressiva com a qual não saberia lidar.
      Decido caminhar até o Café onde tantas vezes estivemos por horas, em conversas amenas, entre risos, afagos e carícias. Gostava tanto quando ela deitava a cabeça no meu peito me abraçando, enquanto eu deslisava minha mão sobre seus cabelos longos e ondulados, de um castanho brilhante, ou enrolando uma mecha macia entre meus dedos. E o seu perfume? Eu fechava os olhos e aspirava aquele aroma, bêbado de felicidade!
      Entro e me dirijo direto ao balcão. As mesmas pessoas trabalhando, as mesmas mesas e alguns habitués, mas o lugar me parece triste, até um pouco lúgubre. Ou apenas eu mudei, deve ser isso. Corro os olhos em volta e a vejo. O choque é inevitável. Sinto meu sangue fugir da face e uma pressão no estômago quase me deixa sem ar. Ela estava sorrindo quando me viu. Falava com alguém ao seu lado que não reconheço. Tampouco importa. Me dirige um cumprimento monossilábico, com um meio sorriso sem graça e um olhar gelado onde percebo passar uma nuvem de apreensão. Está diferente. Percebo que mudou o estilo de vestir-se. A maquiagem, antes leve, em cores suaves, hoje está mais presente  em cores fortes, o que, apesar de ficar bem no seu rosto, me provoca uma sensação de desgosto. Ja não tem os cabelos longos. Estão curtos, muito curtos, num corte moderno acima do ombro. 
      Depois dessa curta análise, viro o rosto com desagrado e uma melancolia toma conta de todo o meu ser. Decidido levanto-me e saio sem olhar novamente para ela. Ja na rua me ocorre que a pessoa que tanto amei, por quem eu morreria, com quem eu passei momentos os mais preciosos da minha vida; essa pessoa não existe mais. Está morta. Fica a lembrança do que fomos. E a saudade persistirá sem que eu a queira apagar da memória.
Agora sei que posso enfim voltar para casa sem medo de ficar sozinho. Deixei o fardo do passado no balcão daquele Café.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Puma

Era um lindo dia no inicio da primavera e o degelo fazia a correnteza do rio correr mais forte. Eu estava sentado logo abaixo de uma linda corredeira onde a água saltava entre as pedras em contínuo ronronar de gato que recebe carinho no colo. Deixei a vara de pesca montada com molinete descansando na beirada da margem e fiquei olhando a paisagem em volta. Havia muitas árvores novas no outro lado e onde eu estava era um terreno vazio, ondulado e ainda coberto com um pouco de neve caída durante a noite.
Ouvi um ruído leve de algo se arrastando no chão e quando olhei, vi minha vara caindo no rio sendo arrastada por alguma coisa grande na água. Pensei num peixe enorme, mas quando olhei para o rio, para minha surpresa, um leão descia com a corrente se debatendo e tentando se aproximar da margem. Um leão nadando? Nunca pensei que isso fosse possível. Em minha concepção de felinos, eles têm horror a água. No entanto lá estava um no meio do rio e levando minha vara de pesca novinha. Deveria ter caído na água rio acima, e agora tentava escapar. Sem pensar pulei na água na esperança de alcançá-la mas não consegui. A correnteza me levou rio abaixo, por uns cem metros, até que consegui nadar de volta. Ao mesmo tempo que atingi a margem, vi o leão saindo também, uns cinquenta metros abaixo. Ele ainda arrastava minha vara, puxada pelo anzol que aparentemente havia fisgado seu pelo, ou a própria pele, quando descia rio abaixo.
Não podia desistir agora; era uma vara de fibra, com um molinete caro, e eu a usava pela primeira vez.
O animal já fugia pra longe do rio e eu sem titubear fui atrás. Ele subiu por uma elevação do terreno e desapareceu. Corri ainda mais, num esforço de atleta no sprint final da corrida e atingi o topo da elevação. O terreno terminava numa concavidade de uns quinze metros de diâmetro que formava uma pequena arena. E no centro dessa arena, o leão esperava! Via agora que na verdade era um puma. Ele estava sentado sobre as patas traseiras e me olhava com seus olhos caramelados e fixos. Fiquei paralisado, e só então percebi a burrice que foi segui-lo. Ele se levantou e veio caminhando quase agachado em minha direção, o olhar paralisante que não se desviava, fixo em meu rosto e a cauda baixa, como se fosse uma corda estirada e pronta para impulsiona-lo à frente. De repente saltou. Tive tempo ainda de juntar as mãos com os dedos entrelaçados e os braços formando um V invertido, para proteger o rosto, de forma que quando me alcançou, suas patas atingiram meus ombros e pude agarrar sua mandíbula por baixo da garganta.
Cai de costas com todo seu peso por cima de mim. Era um animal tremendamente forte e pesado.
Ao cair, num instinto de proteção corporal, dobrei a perna e meu pé ficou firmemente apoiado na articulação da sua coxa com o quadril. Já no chão suas fauces escancaradas junto ao meu rosto, pude sentir seu hálito fétido em toda sua crueza e selvageria.
Fiz um esforço sobre humano para jogá-lo de lado com a força do meu pé apoiado e um giro de corpo. Ela tombou de lado mas não foi de grande alivio, pois com a força da inércia, e como se fosse um judoca experiente, jogou-me por cima do seu corpo e por sorte caí sobre as mãos e os joelhos. Já me preparava para levantar quando ouvi seu rugido subsônico, paralisante e terrível. Mal tive tempo de pensar na minha morte iminente.
Acordei me debatendo, ainda com espírito de luta. Estava na minha cama, quentinha e aconchegante. Sem neve, sem frio, sem leões ameaçadores.
Me virei de lado com um suspiro e tentei voltar a dormir.
Mas antes de cair no sono ainda pensei uma coisa engraçada. Alguém já sentiu cheiro no sonho? Não me lembro de alguma vez ter sentido cheiro num sonho. Acho que os sonhos não têm cheiro.
Cai num sono sem sonhos até amanhecer.