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Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões. (W.Whitman)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O céu estava violeta.
Melhor dizendo, o horizonte apresentava uma cor violeta, com uma ligeira faixa de luz esbranquiçada onde começava o céu ou onde terminava o solo no que seria, seguindo a lógica, o nascente, o leste.À medida que se olhava para o oeste, o violeta desaparecia dando lugar à mais completa escuridão. Um manto negro sem o pontilhado de estrelas a que estamos acostumados, em se tratando de noites sem lua e sem nuvens. 
Por algum motivo que não discernia, olhava com apreensão a silhueta de algumas rochas altas de pontas quadradas contrastando com a  estreita faixa de luz clara no fim da paisagem surreal, quando uma neblina vermelha mesclada de ferrugem desceu sobre tudo num caleidoscópio de manchas em espiral, correntes de vapores e erupções de fogo em vermelho tijolo. Não sentia calor, não sentia frio. Era como se fosse o observador e o observado, e não poderia deixar de sentir uma certa indiferença pela sua localização e pelas coisas que presenciava.
Subitamente, a neblina se abriu. O ambiente foi clareando, as espirais se afastaram e viu então que estivera envolto pela calda de um gigantesco cometa vermelho que agora subia em direção à abóbada celeste sem contudo afastar-se. Parecia seguir a esfera onde estava pousado e que agora parecia-lhe ser um pequeno planeta sem vida perdido em algum ponto de vácuo no universo. Veio-lhe o pensamento, numa certeza lúcida, de que teria ido longe demais e agora temia não haver mais volta. O cometa seguia pelo céu negro, imenso, como uma imensa bola em chamas,  e contudo deixando  atrás de si apenas uma pequena cauda, não maior que seu próprio diâmetro. Teve receio de que descesse novamente sobre si e o levasse embora do ponto onde tinha chegado.     
Não sabia de onde viera e nem por que estava ali. Mas havia algo a fazer e tampouco sabia exatamente o quê. Então veio a voz e gritou do espaço: "A luz, entre na luz!", e num átimo de pensamento estava parado no limiar da faixa esbranquiçada do horizonte.
Deu um passo e entrou na luz. O choque foi violento. A extrema luminosidade penetrou pelo seu corpo físico e se viu atravessado por uma corrente de eletricidade branca assustadora. Seus braços levitaram até a frente do rosto e viu dois anéis escuros circundando seus braços pouco acima dos pulsos. Ali a luz era contida. Ficava estagnada nos braços e causavam quase uma dor, um incômodo tremendo, provocando um estado de verdadeira agonia. A voz entrou novamente em ação e disse num tom de urgência:" jogue pulsos de luz nos braços, dissolva os anéis". Imediatamente, ondas de energia branca partiram de sua fronte, envolveram os braços naqueles pontos e os anéis desapareceram.
O que veio depois foi ainda mais assustador. A luz passou a jorrar pelos dedos como se antes tivesse estado contida por uma barragem. Saía em jatos longos e fortes e provocava em sua passagem um tremor incontrolável. Todo seu corpo vibrava e não havia dor. Quase desapareceu em meio ao brilho daquela luz. Teve a impressão de desintegrar-se e o medo o dominou por um instante. Chorou. Quis parar mas era impossível. Então alguém veio e pegou seus braços, dobrou-os sobre seu peito e o deixou assim. Não viu quem foi; estava cego para tudo que não fosse luz e brilho branco. O fluxo energético diminuiu e sentiu-se tranquilizado. Respirou profundamente e deixou-se ficar ali, quieto, em paz, envolto naquela nova realidade.
 

Um comentário:

  1. Saudades das suas palavras...

    to tentando voltar pra blogsfera

    bjos

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Flavio Dutra.